PRECONCEITO E PURISMO ATINGEM ALGUMAS FORMAS VERBAIS E FAZEM COM QUE EXPRESSÕES CORRETAS, ÀS VEZES, SEJAM ABANDONADAS OU BANIDAS SEM UMA BOA RAZÃO GRAMATICAL.

SÍRIO POSSENTI

Minha atenção para o cha­mado gerundismo foi des­pertada há algum tempo pelos que imaginam que tudo aqui­lo de que eles não gostam é neces­sariamente ruim ou errado. O que mais se ouve são reações quase histéricas – “mau gosto, fere os ouvidos, não desce” – ou explicações fajutas -”é importação descarada do inglês, macaqueação”, desconsiderando o fato crucial de que os principais usuários de “gerundismo” não sa­bem inglês, não lêem inglês, nem viajam aos países de língua inglesa. Por esta razão, vale a pena analisar o fenômeno de outros ângulos.
Para começar, eu diria que, se os puristas não gostam, deve ser interessante. Se, além disso, acham que a construção não serve para nada, alguma serventia deve ter. Em quase tudo, as novidades são índice de qualidade. Mas, ao que tudo indica, quando se trata de língua, só valem as formas antigas (nem tanto, na verdade, porque es­ses puristas em geral não vão além de um século de literatura).
É bom fazer uma distinção crucial: uma coisa é alguém gos­tar ou não de uma construção no­va qualquer. Isso é simples de­mocracia. Outra é achar que não é português ou que não serve para nada. Em geral, juízos assim de­notam falta de análise.
Sintaxe correta
Vou tentar mostrar que não há quase nada de estranho nessa forma tão criticada, que ela não é tão es­quisita, e que, quando é, as razões disso nunca foram aventadas pelos sábios de plantão. Trata-se de uma análise evidentemente preliminar, não exaustiva.
Primeiro, uma apresentação. Tem-se chamado de gerundismo a construções como vou estar enviando meu trabalho, vamos estar providenciando seu cartão, vou estar dan­do aula. O nome, evidentemente, se deve ao uso da forma verbal em -ndo, um gerúndio. Gerundismo seria a proliferação do uso (inade­quado?) do gerúndio.
Considere-se primeiro a sintaxe da construção. A ordem dos verbos auxiliares é perfeitamente canôni­ca. Sabe-se que eles vêm sempre antes do principal (como em vou sair). Se houver mais de um auxiliar na mesma construção, haverá or­dens permitidas e outras proibidas (tenho estado viajando, mas não *estive tendo viajado; vou estar saindo, mas não *estarei indo sair).
Além disso, cada auxiliar pede que o verbo seguinte tenha uma forma específica, ou melhor, não aceita qualquer forma do verbo se­guinte. Assim, o verbo ir pede um infinitivo: vou sair, mas não *vou saído. O verbo estar pede gerúndio (ou particípio): estar dormindo, es­tar vestido, mas não *estar dormir.
Em resumo, a tal construção está em perfeito acordo com a sintaxe do português: sua ordem é ir + estar + ndo. Portanto, do ponto de vista estritamente sintático, não há nada de­mais com o chamado gerundismo. Sua estrutura é perfeitamente regular: cada verbo está na posição e forma em que estaria se, ao invés de aparecer numa trinca, aparecesse numa dupla (vou sair, vou estar, es­tou dormindo, estar dormindo).
Vejamos agora o que a constru­ção significa. Os que não gostam dela dizem que não serve para na­da, que há outra melhor para ex­pressar “a mesma coisa” (eles não são nada sutis). Ao invés de vou es­tar mandando, alegam, por que não dizer logo vou mandar, ou man­darei1? Mas estão errados. Pode ser que nem todos os casos sejam cla­ros, mas, geralmente, a forma com estar + gerúndio veicula um aspecto durativo, ou seja, expressa um even­to que não é instantâneo.
Para que a menção de “aspecto durativo” não pareça estranha, re­lembre-se que o imperfeito do indi­cativo, uma forma bem conhecida, apresenta esse mesmo efeito de sentido: formas verbais como ama­nhecia e pintava referem-se a even­tos ou ações que não são instantâ­neas, que têm alguma duração.
Ora, não só os morfemas (desi­nências) verbais indicam aspecto: às vezes, ele faz parte da semântica da própria palavra. Por exemplo, dor­mir, estudar (no sentido de ‘fazer um curso’, como em estudar medicina), morar (em uma cidade) são durativos. Estar também é durativo: é um verbo de estado, de estado transitó­rio (lembre-se da famosa frase de Eduardo Portela: não sou ministro, estou ministro), mas de estado.
Nem todos os verbos são durativos, evidentemente: enviar, pro­videnciar, decidir, entre centenas de outros, não o são (e nenhum di­cionário informa…). Se não con­siderarmos o aspecto dos verbos, não entenderemos por que um caso de “gerundismo” pode ser nor­mal e outro não.
É por causa do tal aspecto dura­tivo que não é a mesma coisa dizer vou dormir e vou estar dormindo. A diferença está exatamente entre ir (que marca só futuro) e ir + estar (que marca futuro, por causa de ir, e “duração”, por causa de estar). Uma informação como vou estar provi­denciando, que ouvimos eventual­mente da empresa de cujos serviços estamos reclamando, significa, en­tre outras coisas, que a providência não será instantânea…
Além disso, e essa é outra ques­tão, o compromisso expresso em vou providenciar é mais incisivo do que em vou estar providencian­do. Mais ou menos como é mais incisivo dizer providenciarei do que dizer vou providenciar. Apelo para a intuição do leitor: não é a mesma coisa dizer haveremos de vencer e venceremos, venceremos e vamos vencer; assim como não é a mesma coisa dizer vamos vencer e vamos estar vencendo.
Além desses dois, há outro efei­to de sentido importante, agora de cunho pragmático ou interpessoal. A construção gerundiva conota gentileza, formalidade, deferência (se verdadeira ou simulada, não importa). Ou seja: bem ou mal, mesmo que se trate de postergar um serviço urgente, deve-se reco­nhecer que a recusa, pelo menos, é expressa de forma não grosseira (nem mesmo franca, de fato). Su­ponhamos que seja verdade que o fenômeno começou a se espalhar a partir do telemarketing. Isso só confirmaria a análise. A qual cate­goria interessa mais ser ou parecer gentil? De quebra, a fórmula é também menos comprometedora: se uma empresa diz que enviará, você pode esperar pelo produto; se disser que vai entregar, duvide um pouco; mas se disser que vai estar entregando, desista…
Além dos aspectos acima, seria certamente interessante investigar se a enorme aceitação dessa nova locução não se deve a uma cultura da falta de compromisso, que, eu acho, caracteriza nossa sociedade atualmente. Não seria a primeira vez que se estabelece uma relação estreita entre um aspecto da língua e um traço de cultura ou de ideologia.

POSSENTI, Sírio. Defendendo o gerúndio. Disponível em: <http://www.escalaeducacional.com.br>. Acessado em: 27 ago 2008.

3 Responses to “DEFENDENDO O GERÚNDIO”
  1. leandro da costa silva says:

    para mim o gerundismo é normal é só uma nova forma de se expressar.com o tempo a línguagem se desenvolve de uma maneira mais correta.

  2. Abercio Valois says:

    O gerundismo pode ser correto sintáticamente e aplicado corretamente em alguns momentos, no entanto, ainda o considero como vício. E concordo plenamente com o trecho “falta de compromisso, que, eu acho, caracteriza nossa sociedade atualmente”. Já trabalhei em serviço de atendimento ao cliente e atualmente ainda tenho contato com o setor. Percebo que o atendente sempre quer “tirar o seu da reta”, pois o problema, erro ou dificuldade não é dele (e realmente não o é, mas é incumbência sua resolver). Por fim, é quase regra abster-se de responsabilidades ou compromisso.

  3. Kate says:

    algum professor poderia me ajudar na frase a seguir…
    é correto escrever a forma (trem de verbos) como:

    Vou tentar mostrar ou vou tentar providenciar…

    grato

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